CTG Nova Querência
Fort Lauderdale, Flórida · Registro histórico
Fort Lauderdale, Flórida · Registro histórico
Longe do minuano, mas nunca longe do Rio Grande.
A história do CTG Nova Querência não começou em um galpão. Começou no silêncio da saudade.
Em 1983, quando Miami ainda era uma promessa escrita no horizonte do Brasil, um punhado de gaúchos, catarinenses e paranaenses fez o que o gaúcho faz desde sempre quando o mundo fica grande demais: formou uma roda.
Sem sede, sem ata, sem estatuto. Apenas uma cuia de chimarrão passando de mão em mão, o cheiro do churrasco e o português com sotaque do sul abafando o inglês da rua.
Foi assim, informal e verdadeiro, que nasceu o Nova Querência.
O nome, Nova Querência veio da analogia de troca de domicílio que no linguajar gaudério denomina-mos como Querência; assim ao adotarmos o novo país e novo estado, passamos a ter uma Nova Querência.
Aquele "fogo de chão", aceso pela necessidade de abrasileirar e gauderiar a permanência em solo americano, era o reflexo de um tempo. Foi um tempo de grande boom migratório para o sul da Flórida.
De um lado, as grandes asas que chegavam: a VARIG trazendo suas rotas, a Gerdau fincando seu aço, e mais tarde a TAM pousando seus sonhos, cada uma trazendo na bagagem levas de funcionários, e entre eles, muitos gaúchos.
Mas do outro lado, e com a mesma coragem desbravadora, vinha a gente mais comum e talvez mais valente: os autônomos profissionais liberais, os empreendedores, as pessoas físicas. Pedreiros, mecânicos, comerciantes, cabeleireiros, gente que não tinha o crachá de uma grande companhia, mas tinha no bolso a mesma promessa: a de que Miami era um lugar onde o trabalho virava futuro.
Eram homens e mulheres que trocaram a certeza do pago pela incerteza da América, e que na roda de chimarrão encontravam o único lugar onde não eram estrangeiros.
Da roda, nasceu a instituição e da saudade, nasceu o compromisso.
Em 18 de novembro de 1998, aquela roda de chimarrão ganhou nome e alma jurídica. O registro no SUNBIZ da Flórida como Organização Sem Fins Lucrativos oficializou o que o coração já sabia: o CTG – Centro de Tradições Gaúchas Nova Querência.
Entre os que primeiro firmaram o pé no estribo desta história, os nomes que a tradição não esquece: Valnei Santos, Zigomar Vuelma, Fernando Silva, Marcos da Rosa, Enilda Rubin e tantos outros anônimos que emprestaram a cuia, a carne e o tempo.
E o CTG cresceu. Cresceu como se cresce no Pampa – ocupando espaço. No seu auge, o Nova Querência não reunia pessoas, reunia um povo.
Mais de 500 almas em um mesmo local, não necessariamente em um galpão, entre pilchas, vestidos de prenda, gaitas e o rufar de um fandango que fazia Fort Lauderdale esquecer que estava na América.
Como toda história de fronteira, houve um inverno. Um período de silêncio, com as brasas abafadas. Até que em 2009, a tradição, que nunca morre, apenas descansa, chamou de novo.
A restauração veio. Não em um grande salão, mas onde a tradição sempre volta a nascer: ao redor do fogo. As rodas de chimarrão ressurgiram no Restaurante Picanha Brasil, em Boca Raton, com a constância dos que não desistem.
Ali, entre 25 e 40 Irmãos, quinzenalmente, a cuia voltava a girar. E nos churrascos públicos, a família crescia de novo, com mais de 150 pessoas por evento, provando que o gaúcho pode sair do pago, mas o pago nunca sai do gaúcho.
Coube a uma nova Patronagem indicada manter a chama acesa neste segundo tempo: Celso Zanardi, Marco Dombrowski, Fábio Oliveira e Paulo Corso, que seguraram a bandeira quando o vento era mais forte.
O CTG Nova Querência encerrou suas atividades como empresa oficial em 27 de setembro de 2013.
Se contarmos do primeiro chimarrão em 1983 até o último registro, foram 30 anos de história ininterrupta. Se contarmos até hoje, 2026, são 43 anos desde que a primeira roda foi formada.
Sua dissolução não foi por falta de amor. Foi pela própria história que o criou. As mudanças demográficas, a saída gradual daquelas grandes companhias de Miami e a dispersão natural daquela primeira geração de desbravadores, tornaram inviável o sonho maior que sempre nos moveu: a conquista de um chão próprio.
Um galpão nosso, onde houvesse tempo para ensinar uma criança a dançar a chula, para ensaiar uma invernada, para fazer um baile que varasse a madrugada e consequentemente a Renovação.
O CTG Nova Querência não acabou. Ele apenas cumpriu sua missão e está aguardando a sua nova temporada de atividades retornar.
Ele foi, por 30 anos, a casa de quem estava longe de casa. Foi o patrão e o empregado, o executivo da Varig e o empreendedor autônomo, todos na mesma roda, sem diferença, porque a tradição não pergunta o que você faz – ela pergunta de onde você vem.
E enquanto houver um gaúcho em Fort Lauderdale e na Região que, ao sentir o cheiro de churrasco, lembrar de como é participar d'uma boa roda de chimarrão, o Nova Querência seguirá existindo,
Porque querência não é um lugar no mapa. Querência é para onde a gente sempre volta.
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